Foram inauguradas no passado dia 8 de setembro as Variantes rodoviárias de Beringel e de Figueira de Cavaleiros, assumidas como integrantes do Itinerário Principal nº 8 (IP 8).
De uma forma geral, este acontecimento foi recebido de forma quase entusiástica na região, quer pelos media, quer pelas forças políticas, quer pela população em geral.
Compreende-se.
De facto, trata-se inquestionavelmente de um progresso há tantos anos aguardado e tantas vezes prometido, e que, do ponto de vista da mobilidade e segurança rodoviárias representa um salto em frente, por retirar das localidades referidas uma parte significativa do tráfego que as atravessava, melhorando o nível de serviço dos utilizadores da via, e também, seguramente, a qualidade de vida das populações ali residentes.
E por isso é importante dar-lhe relevo e aplauso.
Mas não olhemos apenas para a árvore. Detenhamo-nos um pouco a olhar para a floresta.
A construção das variantes referidas integrou-se numa intervenção mais vasta, nomeadamente a requalificação dos lanços de estrada entre Santa Margarida do Sado e Ferreira do Alentejo e entre Ferreira do Alentejo e Beja, numa extensão de cerca de 45 km, e que foram anunciadas como “requalificação do corredor do IP8”.
Representantes políticos com responsabilidades na área rodoviária referiram inúmeras vezes nos últimos tempos a “requalificação” do IP8 e nomeadamente a sua concretização até Beja em perfil de autoestrada, com a designação de A26, uma (muito) velha e discutida aspiração da região do Baixo Alentejo.
No entanto, perante a intervenção agora realizada dir-se-á com benevolência que estamos perante a presença de um copo meio cheio, ou se quiserem, meio-vazio.
De facto, de autoestrada temos nada, e de Itinerário Principal concretizaram-se uns míseros 12% de IP8, o que só pode constituir-se como uma enorme desilusão.
Expliquemos porquê:
O PRN – Plano Rodoviário Nacional, estabelece a existência de um itinerário principal que atravessa o Baixo Alentejo, ligando Sines a Vila Verde de Ficalho, na fronteira com Espanha, designado por Itinerário Principal nº 8 – IP8.
Nos itinerários principais é proibida a circulação de peões, velocípedes e veículos de tração animal, e para que se assegure tal desiderato deverão ser construídas vias próprias para esses tipos de tráfego, paralelas à estrada, garantindo assim a segregação dos vários tipos de tráfego.

Para que se assegurem níveis de segurança rodoviária adequados, os itinerários principais são obrigatoriamente vedados em toda a sua extensão, sendo proibido o acesso a partir das propriedades marginais.

Ora com o tipo de intervenção agora concretizado apenas se garantem condições de itinerário principal nas citadas variantes de Figueira de Cavaleiros e Beringel. No restante traçado estamos perante uma melhoria das condições da via, sim, mas sem que se cumpram os critérios técnicos impostos para um IP.
De facto, mantem-se o tráfego agrícola a circular em simultâneo com o restante, mantêm-se as ligações diretas a um conjunto significativo de propriedades agrícolas, mantêm-se um conjunto de ligações sem qualquer beneficiação geométrica, de que é exemplo entre outros o acesso à Praia dos 5 Reis, não se garantindo assim a maximização dos níveis de segurança rodoviária e de um nível de serviço adequado.
Apesar do investimento de quase 65 milhões de euros, a promessa de dotar a região de Beja de uma estrada com as condições de um verdadeiro itinerário principal, ligando Sines – A2 – aeroporto de Beja – fronteira espanhola de Vila Verde de Ficalho, há tantos anos prometida, e por forma a dar finalmente cumprimento ao definido no PRN, continua por cumprir. Por isso o IP8 está outra vez a “meio da ponte”.
Luis Melo, eng
Ex-diretor da Infraestruturas de Portugal e Embaixador da AFESP região Alentejo