Estranho sentido da coisa pública….

Em 31Janeiro passado foi publicada na DR uma Resolução da Assembleia da Republica (nº43/2025) visando, segundo se refere no sumário “Recomendar ao Governo a adoção de medidas para a redução da sinistralidade rodoviária e para a promoção da segurança rodoviária”.

Todas as recomendações que visem reduzir a sinistralidade rodoviária são bem-vindas no nosso país. O que o sumário não diz e não é por acaso, é que as medidas visam essencialmente os veículos de duas rodas e seus utilizadores.
Ora, todos sabemos que o nível de proteção em caso de acidente de um veículo de duas rodas é bem inferior ao de um veículo de quatro ou mais rodas. Os últimos possuem na sua maioria um habitáculo , cintos de segurança e outros meios de segurança passiva e os veículos de duas rodas também na sua generalidade não gozam da mesma proteção.
Daí que, o risco de morte seja cerca de 10 vezes superior.

Assim sendo seria de esperar que os utilizadores de veículos de duas rodas estivessem suficientemente informados dos riscos que correm ao adquirir um motociclo.
Também seria de esperar que o comportamento de um utilizador de um veículo de duas rodas tivesse em conta esta realidade intrínseca de maior risco e menor proteção quando circula numa via, risco esse que, sendo próprio de um viatura que está apoiada em dois pontos apenas, acarreta desse modo maior instabilidade. No entanto, muitos dos utilizadores, não escolhem comportamentos cautelosos ou velocidades adequadas e nem sequer roupas protetoras em caso de queda. Ao invés, é preocupante constatar comportamentos de risco, velocidades excessivas, e por vezes atitudes agressivas para com outros utilizadores que, diga-se, perante elevadas velocidades, não conseguem sequer reagir em tempo à presença daqueles veículos.

Nada contra a existência destes veículos. Ma o que não é curial é esperar que os portugueses tenham de pagar com os seus impostos medidas adicionais para colmatar os riscos excessivos que muitos motociclistas insistem em correr, ou mesmo os riscos intrínsecos a um veículo deste tipo.
Daí que não pode deixar de haver uma pontinha de surpresa ao constatar que a Assembleia da República faça recomendações ao Governo muito dirigidas aos motociclistas e não trate de fazer recomendações sobre outros utilizadores mais vulneráveis como por exemplo os peões que também correm riscos suscitados por veículos de duas rodas que com frequência circulam em zonas pedonais, ou em passeios estreitos passando por cima de toda a folha e insultando transeuntes.
Até parece, em linguagem popular que “avia-se quem chega primeiro”.
Acresce que, sabendo-se do risco elevado de morte de quem circula em duas rodas (10 vezes superior ao automóvel, como atrás se referiu), seja a própria Resolução da AR a conter sugestões ao Governo para a promoção do uso de motociclos, através de campanhas publicitárias.
Por este andar então, o que pedirão ao Governo os comerciantes de veículos de 4 rodas.

Estranho sentido da coisa pública….